O papel e o desempenho da acústica nos diferentes espaços das escolas com a retomada das aulas

A importância do relacionamento social promovido por instituições de ensino e o impacto positivo do seu papel no desenvolvimento de crianças e jovens ficou evidente com a pandemia da Covid-19. Um aspecto ficou claro, os alunos estarem longe das escolas é algo muito prejudicial à saúde da sociedade. O contato diário entre crianças e jovens em um ambiente controlado, com espaço físico que forneça as condições para o desempenho dos estudos, ainda é a melhor invenção humana para a educação. E o conforto acústico, nesses ambientes, se mostra, cada vez mais, como item de extrema necessidade para a fruição da comunicação e concentração em um momento chave da vida.

Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apelaram aos governos para que coloquem a abertura de escolas como prioridade. A constatação faz parte de um guia publicado pelas entidades sobre a retomada das aulas e o papel do sistema de ensino em meio a uma pandemia. Como alguns tentaram prever, a substituição do ensino presencial pelo remoto, pelo menos até o término do ensino médio, não parece ser uma boa escolha. Na retomada das aulas, muitos protocolos estão sendo colocados em prática por escolas públicas e privadas.

  

Desempenho acústico

Além do distanciamento entre as mesas de alunos nas salas, o que se tem visto é a utilização de pátios, corredores e quadras de complexos esportivos como novas “salas de aula” improvisadas. A questão que se coloca é com relação ao desempenho acústico, já que na maioria das escolas esses espaços, apesar de maiores e mais ventilados, não possuem recursos adequados e específicos. Segundo José Augusto Nepomuceno, diretor da Acústica & Sônica, são os inúmeros exemplos de ocupação de diferentes espaços das escolas que continuam em discussão entre arquitetos, consultores e educadores.

Para Nepomuceno, “seria importante pensar que os acabamentos de todos os locais de circulação e uso dos alunos devem promover conforto acústico e não apenas os das salas de aula. Esta é uma tendência em projetos recentes: todos os espaços da escola são espaços de aprendizado. Áreas de circulação como corredores, por exemplo, rompendo as paredes da sala de aula e permitindo um maior distanciamento entre os alunos. Estúdios entre salas de aula. Espaços que podem ser flexíveis e múltiplos: estudo, biblioteca e convivência. Pátios que possam proporcionar engajamento e experiência ao ar livre”, destaca.

A adaptação de ambientes abertos tal como pátios é possível, porém, com restrições e maior complexidade, alerta Rafael Schmitt, sócio-diretor, da Scala Acústica. “A utilização de barreiras acústicas formando divisórias-tipos biombos é uma possibilidade, porém, não irá garantir a mesma privacidade que ambientes enclausurados. Espaços de maior volume podem ser subdivididos com partições em sistemas leves (construção à seco), permitindo a rápida construção e, posteriormente, sua remoção sem grandes problemas. Talvez o sistema de rodízio intercalando aulas presenciais e remotas é uma saída alternativa para o momento”, diz Schmitt.

A maioria dos ambientes escolares não possui compatibilização entre circulação natural de ar e conforto acústico, com as janelas abertas e demais aberturas tal como portas. “Nesses casos, uma das possibilidades é implantar um sistema de ventilação cruzada com atenuação sonora para as entradas e saídas de ar, com o objetivo de garantir o adequado ruído de fundo (som residual) para locais como salas de aulas, bibliotecas, laboratórios, demais espaços escolares. Porém, para obras prontas, realizar esta adaptação, pode se tornar caro e inviabilizar o projeto”, conclui Schmitt.

Há também uma discussão fundamental sobre a abissal diferença de orçamento e de recursos entre escolas públicas e privadas, segundo Nepomuceno. “Sugiro propor uma reflexão sobre como trazer tecnologia para dentro das escolas públicas com um condicionamento acústico padrão, como um forro, iluminação decente e mobiliário adequado”, complementa.

Para uma boa qualidade acústica em salas de aulas é fundamental controlar a reverberação com materiais fono absorventes, sugere Raquel Rossatto, coordenadora de acústica de edificações do escritório Giner. Ela explica que “há estudos que comprovam que o pouco ruído residual e o tempo de reverberação controlado contribuem com o aumento da inteligibilidade da fala e o aprimoramento da comunicação em salas de aulas. Além disso acrescenta-se a importância da reflexão sonora útil, responsável pelo reforço sonoro às pessoas mais distantes do professor”, ressalta.

“Durante a pandemia, outro aspecto de adaptação por parte das escolas foi a introdução das aulas remotas com recursos digitais de aprendizagem. Para isso, a maioria das escolas precisou investir na adequação ou mesmo na execução de estúdios de transmissão de vídeo. “Notamos uma demanda maior por projetos e construção de estúdios de gravação de videoaulas, como foi o caso dos quatro estúdios da Afya Educacional que executamos”, destaca Rossato. Nesse caso, o maior cuidado foi com o isolamento acústico da fachada e da cobertura, em função da localização próxima de vias ruidosas.

Outro fator de preocupação em uma sala de aula é o volume da fala dos professores com o uso de máscaras, portanto, um bom desempenho acústico do espaço pode ajudar na preservação da saúde vocal dos profissionais. Para Schmitt, isso é preocupante, pois potencializou ainda mais este problema que, mesmo antes da pandemia, já existia, pela “acústica ineficiente” dos ambientes escolares. “Uma sala de aula bem projetada irá favorecer a propagação sonora interior utilizando as próprias superfícies para estimular o reforço sonoro, evitando que o professor fale mais alto. Espaços com tempo de reverberação adequado e isolamento sonoro compatível com a finalidade e uso permitem que a comunicação interna seja mais tranquila e agradável, tanto para quem é o transmissor da mensagem (professores), quanto aos ouvintes (alunos). Preservar a saúde é a maior qualidade no aprendizado”, finaliza Schmitt.