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Quanto menos ruídos ouvimos, mais sons escutamos durante a pandemia que reduziu a poluição sonora em São Paulo

06/05/2020 - 13:07

No lugar do barulho produzido pelo voo baixo de aviões sobre a cidade, o agradável canto de bentevis e sabiás, ao invés das buzinas estridentes dos veículos que deixaram de trafegar por nossas ruas, a suave sonoridade das folhas das árvores em movimento. Esses são alguns dos resultados audíveis do confinamento a que a sociedade se encontra como forma de defesa contra a pandemia. O isolamento social nos curou de uma surdez involuntária. É disso que também trata a matéria a seguir. 

A bandeira pelo controle e redução da poluição sonora nas grandes cidades vem sendo hasteada pela ProAcústica desde a sua fundação. Nesse tempo todo, a associação tem trabalhado para mobilizar a sociedade ao debate sobre as possíveis soluções para o problema sem gerar impactos na economia e no meio ambiente. Este ano, porém, algo inesperado aconteceu. A pandemia espalhada pela Covid-19, um novo coronavírus, gerou uma onda de contaminações e mortes pelo mundo e obrigou os governos a interromperem as atividades em quase todas as cidades. De acordo com o levantamento feito pelo vice-presidente de atividades técnicas da ProAcústica, Marcos Holtz, em alguns pontos da região central da cidade, com a diminuição do volume de circulação de veículos e pessoas e do funcionamento de equipamentos prediais e máquinas industriais, houve uma diminuição do ruído urbano em 10 decibels, valor que corresponde à metade (50%) da sensação de volume do som, costumeiramente, percebido nesses locais.

Essa redução no ruído poderia ter sido ainda maior se a adesão da população à quarentena fosse mais intensa ou se o governo tivesse decretado lockdown (confinamento total). Para se ter uma ideia, no estado de São Paulo, até o dia 24 de abril, quando o governo ainda mantinha a quarentena com o fechamento dos locais de convívio, comércio e ensino, o Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI-SP) mostrava que o percentual de isolamento social era de 57%. Nesse sistema uma central de inteligência analisa os dados de telefonia móvel para indicar tendências de deslocamento e apontar a eficácia das medidas de isolamento social.

De acordo com a medição do ruído nas ruas esvaziadas feita pela ProAcústica, a capital tem hoje pontos, antes reconhecidamente barulhentos, registrando 61 decibels (dB), dez a menos do que de costume. É o caso da área do Masp - Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, uma das regiões de altos índices de ruído da cidade, que registrou menos 10 decibels", afirma Holtz,

A paralisação do aeroporto de Congonhas também ajudou a derrubar os índices de ruídos na cidade. O número de pousos e decolagens despencou. Registros da Infraero, de fevereiro, mostram que Congonhas teve durante o mês, 13.460 chegadas e partidas. No último dia 8 de abril, foram somente três voos. Holtz lembra que São Paulo é uma cidade barulhenta. “Na Paulista, quando tem show, chega a dar 100 dB.” A falta do barulho nas cidades não representa só ausência, dor, sofrimento ou insegurança, mas contribui para a reflexão sobre um caminho futuro.

Outro aspecto a se destacar com o esvaziamento das ruas foi o de que novos sons começaram a surgir. Com menos poluição sonora os animais se sentiram confiantes e se aproximaram. Os sons dos pássaros passaram a ser percebidos em locais antes inimagináveis. Em um condomínio no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, um morador flagrou macacos aos gritos e executando mergulhos na piscina do condomínio. O som do caminhar dos veados pelas ruas de Nara, aos pés do Monte Wakakusa, no Japão, foi registrado pelos moradores. 

Além disso, desde o início do mês, um vídeo que mostra gangues de macacos brigando por comida na Tailândia circula na internet. De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian, os animais costumavam ser alimentados por turistas. A cidade de Lopburi, onde as imagens foram registradas, já quase não recebe visitantes devido à pandemia de coronavírus. Na Itália, um dos países mais afetados pela pandemia, usuários de redes sociais reportaram ter visto diversos animais selvagens nas ruas. Há casos de pessoas que dizem ter se deparado com ovelhas, cavalos e até mesmo javalis.

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