3º Fórum Paulista de Acústica fortalece a integração entre academia e mercado
A Escola Politécnica da USP sediou o 3º Fórum Paulista de Acústica. Evento que, entre outras conquistas, consolidou a sinergia entre o ambiente acadêmico e as demandas do mercado técnico e industrial de acústica do estado de São Paulo. O fórum foi organizado e realizado pela Sociedade Brasileira de Acústica (Sobrac) e contou com o apoio institucional da Associação Brasileira de Qualidade Acústica (ProAcústica).
Fotos Fórum Paulista de Acústica | Lorenzo Passarelli

Ao reunir pesquisadores, estudantes e profissionais do setor, o encontro teve como propósito debater o panorama da produção técnica regional e aproximar as inovações desenvolvidas nas universidades, no mercado de soluções acústicas, na arquitetura e no cotidiano das cidades.
A Profa. Dra. Maria Fernanda de Oliveira, docente da Unicamp e presidente do Fórum, destacou a relevância de mapear os profissionais locais e as instituições de ensino do estado. Segundo ela, em âmbito nacional, São Paulo representa uma parcela expressiva, tanto na atuação quanto na formação de profissionais.
“Temos polos de grande relevância aqui, como a USP e a Unicamp, além de outras instituições com forte caráter técnico. Valorizando a base teórica e prática da acústica, nossa preocupação inicial foi mapear onde estão esses especialistas. O fórum nasce, portanto, com o papel de olhar para o estado de São Paulo em sua totalidade”, ressaltou.
A docente também reforçou o compromisso social da academia ao pontuar que “é importante focar um pouco na teoria dentro da universidade, mas a instituição tem o compromisso de devolver esse conhecimento para a sociedade”, frisou.
Complementando a visão sobre o papel formativo e de conscientização regional, a Profa. Dra. Ranny Michalski, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – FAUUSP, vice-presidente do Fórum e vice-coordenadora da Regional SP da Sobrac, destacou o fato de o evento impulsionar o desenvolvimento acadêmico logo no início da carreira dos estudantes.


De acordo com Michalski, “esse evento, muitas vezes, é o primeiro contato que os alunos da graduação têm com os fabricantes, com o mercado e com os consultores. Eles ficam até ansiosos para saber quais serão as palestras e os patrocinadores. Isso é muito legal e acaba despertando neles a vontade de estagiarem nessas empresas. Assim nós saímos um pouco do foco dos grandes eventos e trazemos a discussão para a realidade deles em um evento regional”.
O papel fundamental desse intercâmbio técnico também foi enaltecido por Edison Claro de Moraes, presidente do conselho administrativo da ProAcústica, que representou a associação na parte da manhã do fórum. Ele ressaltou a importância da parceria entre as entidades e a necessidade de expandir o alcance desses debates para outros públicos, como os arquitetos.


“A Sobrac, por ser uma grande impulsionadora da ciência e do setor acadêmico, serve como um alicerce para os nossos projetos”, destacou Moraes. Ele também salientou o papel do evento na formação de arquitetos, para que passem a desenvolver projetos focados no conforto acústico. “Vemos espaços maravilhosos que pecam na acústica. Nota-se o traço do arquiteto, mas são ambientes barulhentos, como shoppings, lojas e restaurantes onde mal se consegue conversar. Falta tratamento sonoro”, alertou.
A rica programação do fórum cobriu frentes variadas do setor, iniciando com discussões sobre o ensino em acústica. No segmento dedicado à acústica da audição e da fala, os debates giraram em torno dos requisitos acústicos para usuários com perda auditiva. Já o bloco de acústica ambiental, reuniu investigações geoespaciais e simulações computacionais voltadas ao monitoramento de ruído urbano; além de análises sobre o impacto sonoro em espaços públicos e áreas culturais.
O conceito de paisagens sonoras também esteve em pauta, explorando desde a caracterização acústica de museus e parques até o desenvolvimento de índices de qualidade sonora urbana. Por fim, as discussões sobre o ambiente construído englobaram a acústica de escritórios, edificações e salas, destacando estudos sobre o desempenho de contrapisos, soluções estéticas corporativas, condicionamento de salas de aula e o impacto sonoro em auditórios e ginásios esportivos.
O evento também abriu espaço para debates sobre materiais acústicos, acústica musical e acústica virtual. O encerramento contou com uma palestra ministrada por Lineu Passeri Júnior (Passeri Acústica), sob o tema acústica em arenas e ambientes esportivos.

Acústica em ambientes esportivos foi tema de mesa redonda em evento da Sobrac
Entre os destaques da programação do 3º Fórum Paulista de Acústica, ocorreu a mesa-redonda dedicada ao tema “Acústica em Ambientes Esportivos”, que reuniu especialistas para compartilhar experiências práticas e soluções de engenharia em projetos complexos. O debate contou com a participação de Marcos Holtz (Harmonia Acústica) e Raquel Rossatto (Giner Acústica), que trouxeram cases de relevância nacional


Case Pacaembu: modernização e restauro histórico
Durante sua apresentação Marcos Holtz apresentou os bastidores do projeto acústico desenvolvido para a reforma e modernização do Complexo do Pacaembu, em São Paulo. Patrimônio histórico tombado, o projeto – vencedor do prêmio europeu AR Future Projects 2023 na categoria “Velho e Novo” -equilibrou o restauro das características originais da década de 1940 com intervenções contemporâneas robustas.
Entre as principais transformações do complexo que exigiram um minucioso diagnóstico acústico, destacam-se: o novo Edifício Multiuso erguido no lugar do antigo Tobogã. Esse prédio de 9 andares abrigará um hotel de alto padrão, além de um Centro de Convenções e Eventos subterrâneo com capacidade para até 8.500 pessoas; a modernização do centro poliesportivo, que inclui o restauro completo da piscina olímpica e a modernização interna do ginásio poliesportivo e da quadra de tênis que exigiram a manutenção da arquitetura original, como a famosa estrutura de arcos de madeira do ginásio de basquete, além de englobar a infraestrutura do estádio, com a reconstrução das arquibancadas laterais em concreto, a implementação de gramado sintético e as novas cabines de imprensa e transmissão.
Para viabilizar a convivência harmônica entre shows, hotel, centro de convenções e práticas esportivas cotidianas, Holtz explicou que o projeto baseou-se em propostas rígidas de privacidade e tolerância ao ruído de ambientes adjacentes.
A engenharia acústica utilizou normas nacionais e internacionais, para definir metas estritas de isolamento, ruído de fundo e tempo de reverberação para cada zona. Ambientes de alta criticidade, como a sala do VAR, estúdios de transmissão e o próprio Centro de Convenções, receberam tratamentos otimizados para garantir o controle total da dispersão sonora.
O desafio das quadras e a inteligibilidade da fala
Complementando o debate com um projeto de grande escala urbana Raquel Rossatto compartilhou os desafios cotidianos enfrentados no desenvolvimento de projetos para arenas esportivas. Um dos pontos críticos discutidos foi o elevado tempo de reverberação comumente encontrado em quadras tradicionais, decorrente de grandes volumes arquitetônicos e da ausência de condicionamento adequado. Essa reverberação excessiva compromete diretamente a inteligibilidade da fala, dificultando a comunicação essencial entre jogadores, técnicos e usuários.
Rossatto exemplificou a complexidade do tema ao citar os projetos de quadras de tênis de saibro. Nesses ambientes, a especificação de materiais fonoabsorventes é altamente limitada: os revestimentos precisam ter alta resistência mecânica para suportar os impactos constantes das bolas e, simultaneamente, resistir a rotinas severas de limpeza por conta da poeira gerada pelo saibro.
Além disso, a especialista trouxe experiências recentes da Giner em projetos de salas esportivas instaladas em fachadas ativas de torres residenciais. “Nesses casos, é essencial conciliar a funcionalidade dos espaços com o desempenho acústico da edificação, evitando a transmissão de ruídos e vibrações para as unidades habitacionais”, destacou Raquel.
A mesa-redonda reforçou que a acústica em ambientes esportivos deixou de ser um fator secundário para se tornar protagonista no conforto urbano e na viabilidade comercial de novos empreendimentos. A troca de experiências entre profissionais evidenciou que, seja na proteção de torres residenciais contra ruídos de academias ou na preservação histórica de um estádio multiuso, a engenharia acústica de precisão é a chave para o sucesso da arquitetura moderna.