Inter-Noise 2026 conecta comunidade acústica global e aponta novos caminhos para controle de ruído
Entre os dias 9 e 12 de agosto de 2026, o Adelaide Convention Centre, na Austrália, recebeu a 55ª edição do Inter-Noise – International Congress and Exposition on Noise Control Engineering, um dos mais importantes encontros mundiais dedicados à engenharia de controle de ruído, meio ambiente e acústica aplicada.
Organizado pela Sociedade Australiana de Acústica em parceria com o Instituto Internacional de Engenharia de Controle de Ruído, o congresso reuniu pesquisadores, especialistas, acadêmicos e representantes da indústria de diversos países para compartilhar pesquisas, tecnologias e experiências e discutir os novos desafios relacionados ao ambiente sonoro.


Com o tema “From the Outback to the Ocean” (Do Outback ao Oceano), o Inter-Noise 2026 ampliou o olhar sobre o controle de ruído ao abordar ambientes extremamente distintos, dos grandes centros urbanos e instalações industriais às regiões rurais e remotas e aos ecossistemas marinhos.
A proposta partiu de uma constatação importante: um mesmo ruído pode produzir impactos completamente diferentes dependendo do ambiente em que ocorre. Sons que quase passam despercebidos em uma grande cidade, por exemplo, podem se tornar altamente disruptivos em regiões remotas. Da mesma forma, o ruído antropogênico produzido nos oceanos e rios representa uma preocupação crescente diante de seus possíveis efeitos sobre a vida marinha.
A programação contemplou ainda avanços em materiais de alto desempenho, ferramentas e softwares de simulação, tecnologias de isolamento e estratégias sustentáveis de mitigação de ruído, além de discussões sobre os impactos do ambiente sonoro na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida.


Para José Augusto Nepomuceno, Vice-Presidente de Atividades Técnicas da ProAcústica, a edição se destacou tanto pelo nível das discussões quanto pela organização. Segundo ele, o aplicativo desenvolvido para o congresso funcionou de maneira eficiente, permitindo acesso a resumos, localização das atividades, mensagens e demais informações necessárias aos participantes.
Nepomuceno elogiou a estrutura do Adelaide Convention Centre, um equipamento de grande porte com fluxo organizado entre as diferentes salas e a área de exposições posicionada estrategicamente no percurso entre elas. “A recepção funcionou como um hub de suporte aos visitantes e palestrantes, contribuindo para a dinâmica do evento”.
A diversidade da programação técnica também foi um dos destaques desta edição. “Além dos temas diretamente ligados às artes performáticas, o congresso promoveu sessões sobre acústica de salas de aula, processamento de sinais, ruído dos diferentes modais de transporte, além de áreas tradicionais e recorrentes como controle de ruído, acústica de edificações e acústica ambiental”, completa Nepomuceno.


Presença brasileira aproxima tendências internacionais do mercado nacional
A comunidade acústica brasileira teve presença no Inter-Noise 2026, acompanhando debates e apresentando trabalhos que ajudam a aproximar a produção técnica e científica nacional das discussões internacionais. Para a ProAcústica, essa participação também permite identificar tendências que poderão repercutir na evolução das normas, tecnologias, projetos e práticas adotadas no Brasil.
Entre os profissionais brasileiros presentes, além de Nepomuceno, estava Edison Claro de Moraes, presidente do Conselho Administrativo da ProAcústica, que acompanhou especialmente as novidades relacionadas a janelas, fachadas e soluções de isolamento acústico. Durante o congresso, Moraes também participou de palestras e manteve contato com expositores para conhecer novas tecnologias e soluções, entre elas equipamentos como sound cameras com conexão a celulares.


As tendências e soluções observadas por Moraes no congresso foram temas apresentados no Vidrosom, realizado em setembro, em São Paulo, em sua palestra “Do Inter-Noise Adelaide ao Brasil: novas soluções para janelas e fachadas acústicas”.
A participação brasileira, ainda, levou ao congresso uma discussão que aproxima acústica, arquitetura, cultura e preservação histórica. Nepomuceno apresentou trabalho no Inter-Noise sobre intervenções em edifícios históricos destinados às artes performáticas. Além da apresentação, atuou como chair da sessão Art, Music & Science e como co-chair da sessão Acoustics of Performing Arts and Listening Spaces.
As sessões reuniram discussões sobre diferentes dimensões da acústica aplicada às artes e aos espaços culturais. Entre os trabalhos apresentados estiveram estudos sobre acústica de salas de ensaio, com Peter Exton; acústica de museus, com o professor Yong Hee Kim; conversão de pequenos espaços originalmente utilizados como depósitos em locais para apresentações musicais, com Takafumi Shimizu e equipe; e relações entre suporte e presença sonora nos palcos, abordadas por Thomas Scielo.
O estudo apresentado por Nepomuceno levantou uma questão instigante. A acústica de um edifício histórico também faz parte de seu patrimônio e, portanto, deve ser preservada? O trabalho analisou quatro espaços brasileiros destinados às artes performáticas, entre eles a Sala São Paulo, em São Paulo, e a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro.
A discussão propõe ampliar o conceito tradicional de patrimônio. Além dos elementos arquitetônicos e visuais de uma construção, determinadas salas desenvolveram ao longo do tempo umaidentidade acústica própria, associada à sua história, ao uso e à experiência de músicos e espectadores.
A produção científica brasileira apresentada no congresso incluiu outros temas relevantes. Jarbas Souza Filho, mestrando do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável da ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, ligada ao IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, apresentou um trabalho sobre a influência da Caatinga na propagação do som produzido por turbinas eólicas e seus efeitos sobre comunidades, aproximando acústica ambiental, geração de energia e características específicas do território brasileiro.
Maria Fernanda Assunção, arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com atuação e pesquisas voltadas à aplicação do Building Information Modeling (BIM), e colegas, por sua vez, apresentaram trabalho relacionado ao uso do BIM na organização de projetos acústicos, evidenciando como ferramentas digitais podem contribuir para integrar a acústica aos processos contemporâneos de projeto.
A agenda na Austrália incluiu experiências diretamente relacionadas à acústica arquitetônica. Como foi o caso de José Carlos Giner, Conselheiro Administrativo da ProAcústica que, antes do Congresso, participou de um Architectural Tour na Sydney Opera House – dedicado à concepção, ao projeto e à construção de um dos edifícios mais emblemáticos do mundo. Além de acompanhar a programação técnica e as discussões sobre inovação, encerrou sua participação com uma visita técnica ao Adelaide Town Hall.
Inter-Noise 2026 em números
A dimensão do encontro realizado em Adelaide também pode ser observada nos resultados do congresso.
O Inter-Noise 2026 reuniu 926 participantes de 37 países. Desse total, foram 652 participantes regulares presenciais, além de 39 on-line e188 estudantes presenciais, somados a outros 47 participantes on-line.
Ao longo da programação científica e técnica, foram apresentados 577 trabalhos, demonstrando a diversidade e a intensidade da produção de conhecimento compartilhada durante os quatro dias de congresso. A exposição reuniu ainda 52 expositores, estabelecendo o maior número já registrado em uma conferência de acústica realizada na Austrália.


Protagonismo internacional da ProAcústica e atuação no Board do I-INCE
Além da intensa programação científica e técnica do Inter-Noise 2026, a participação brasileira em Adelaide também foi marcada pelo fortalecimento da presença institucional da ProAcústica nas instâncias internacionais que discutem os rumos do setor.
Durante a reunião do Board doInternational Institute of Noise Control Engineering (I-INCE), foram apresentados importantes resultados, decisões e encaminhamentos relacionados à região Pan-Americana, com participação direta de representantes brasileiros.
Carolina Monteiro, Vice-Presidente Pan-America do I-INCE, apresentou ao Board um relatório reunindo as principais atividades, realizações e avanços da região. Um dos destaques foi o impacto do Inter-Noise 2025, realizado em São Paulo e organizado pela ProAcústica. O documento ressaltou que o congresso ampliou a visibilidade internacional da acústica latino-americana, promoveu novas conexões entre profissionais, empresas e instituições, movimentou o mercado e demonstrou para a comunidade internacional a capacidade da região de organizar e receber um congresso de grande porte.
Um importante resultado para a representação brasileira foi a nomeação de José Augusto Nepomuceno para integrar o Congress Selection Committee (CSC) no mandato de 2027 a 2029. O CSC é o comitê permanente do I-INCE responsável por avaliar e orientar o processo de seleção das futuras sedes da série de congressos Inter-Noise.
Em 2027, o Brasil também ficará responsável por liderar o comitê Congress Evaluation Committee (CEC), que será presidido por Marcos Holtz, presidente da ProAcústica. O CEC é o comitê permanente do I-INCE encarregado de produzir uma avaliação abrangente de cada congresso Inter-Noise, incluindo a análise crítica de seus resultados e dos dados estatísticos do evento. A experiência da edição realizada em São Paulo, portanto, terá continuidade dentro da estrutura internacional do I-INCE, contribuindo para a avaliação e o aperfeiçoamento das próximas edições.
Atividades da região Pan-Americana
O relatório apresentado por Carolina Monteiro também trouxe um panorama das atividades e dos avanços das demais associações que integram a região Pan-Americana.
A INCE-USA avançou em suas iniciativas de desenvolvimento e certificação profissional, incluindo a expansão das possibilidades de certificação para profissionais internacionais e a oferta dos cursos Technician’s Badge.
Também foram destacados o fortalecimento do NoiseCon, a retomada do Noise News International, a adoção do modelo de acesso aberto pelo Noise Control Engineering Journal e o uso crescente das plataformas digitais para ampliar a disseminação de conhecimento técnico.
A associação norte-americana mantém ainda participação ativa nas atividades do I-INCE e está envolvida, juntamente com a entidade canadense, na preparação do Inter-Noise 2028, que será realizado em Vancouver, no Canadá.
A Sociedad Chilena de Acústica (SOCHA) apresentou avanços em seu processo de renovação institucional, marcado pela eleição de uma nova diretoria e pelo crescimento de sua base associativa, que já reúne mais de 42 membros ativos de diferentes áreas profissionais.
A entidade também manteve sua participação em processos regulatórios relacionados ao ruído ambiental e ao transporte, ampliou sua presença em fóruns internacionais e apoiou iniciativas de divulgação da acústica para a sociedade. Entre os projetos apresentados como destaque está o estudo sobre a acústica do Teatro Municipal de Santiago como patrimônio cultural imaterial.
A Canadian Acoustical Association (CAA), por sua vez, passou por um importante processo de modernização institucional. Entre as iniciativas apresentadas estão o aprimoramento de sua governança, a reconstrução de seu website bilíngue e a integração dos sistemas utilizados para gestão de associados e eventos.
Fotos: Arquivos da organização do Congresso
