A sonoridade impecável da nova Sala de Concertos do Instituto Baccarelli em Heliópolis
Abalado pelo incêndio de proporções devastadoras que atingiu a comunidade de Heliópolis, em São Paulo, no ano de 1996, o Maestro Silvio Baccarelli decidiu transformar a dor em solidariedade. Naquele mesmo ano, fundou uma escola de música no território, fundamentada na premissa de que a educação musical é uma ferramenta poderosa para a transformação e inclusão social. O que começou com 36 alunos tornou-se, três décadas depois, um dos programas sociais mais bem-sucedidos da América do Sul. Hoje, além da sede em Heliópolis, o Instituto comanda 12 unidades dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), administrados em parceria com a Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo.

Em 2004, o Maestro procurou o escritório Acústica & Sônica para o desenvolvimento do planejamento programático e de acústica de sua escola de música. Desde o primeiro contato, a diretriz foi clara: o padrão de excelência seria inegociável. Mesmo alertado de que os custos por metro quadrado para uma escola de música figuram entre os mais elevados da construção civil, a resposta do Maestro foi firme, afirmando que, independentemente do tempo necessário, o projeto seria executado de forma correta. Esse mantra de “fazer o melhor” permaneceu inabalável e tornou-se a marca definitiva da instituição.

O desafio particular da empreitada foi manter a excelência tecnológica com recursos comedidos, o que tornou a gestão estratégica do Instituto Baccarelli essencial para vencer obstáculos orçamentários. Os recursos foram alocados com precisão nos itens considerados críticos para a performance acústica. O projeto, iniciado em 2005 em conjunto com o arquiteto Frank Siciliano (Todescan Sciliano), foi dividido em duas fases: a primeira contemplou o bloco de prática e ensaios, aulas e administração, inaugurada em 2008 com 5.000 m², enquanto a segunda fase, dedicada à sala de concertos, foi retomada em 2023.
A configuração do terreno e a distribuição do programa de uso condicionou uma configuração de “caixa de sapatos” para a sala, volumetria que atende muito bem à capacidade de aproximadamente 500 pessoas e otimiza custos de projeto e obra. O desenvolvimento foi liderado pela equipe de acústica, que priorizou detalhes de volumetria e acabamentos necessários para a melhor sonoridade do espaço. Com total apoio da equipe do Instituto e do Arquiteto Sciliano, foram realizados estudos incansáveis e a execução de pequenas maquetes arquitetônicas para avaliar as relações espaciais. Uma série de simulações acústicas computacionais acompanharam este processo.


Durante esse processo, surgiram ideias inovadoras, como a inclusão de um fosso de orquestra, elemento nada usual em salas de concertos, e um balcão para estudantes abraçando o palco — inspirado nos balcões na área de palco da sala de concertos do Kennedy Center em Washington, EUA, que tinham um propósito diferente. No caso dessa sala de concertos, o balcão de estudantes foi pensando como uma opção que permita aos alunos acompanharem concertos e ensaios sob uma perspectiva diferenciada da plateia seja de visão ou escuta.
Ao ser retomada 18 anos após sua concepção original, a Sala de Concertos passou por atualizações importantes. Nesse período, o Instituto alcançou uma solidez artística notável, com seu corpo orquestral hoje figurando entre os melhores do país. Adicionalmente, soluções implantadas em salas construídas neste período poderiam ser trazidas para o projeto. Eram razões mais que suficientes para propor ao Instituto uma atualização dos planos iniciais.

Esta atualização estava limitada pelos níveis já construídos e seu perímetro. Porém, muitos ajustes eram possíveis. Se o nível de cobertura não poderia ser alterado, a eliminação do forro auxiliaria a ganhar volume extra. Os conceitos de ajustes acústicos na região do palco, validados após 2005, foram implantados no Baccarelli, seguindo resultados muito animadores testados em salas no Brasil e no Exterior. Sobre o palco foram instaladas peças conhecidas como “nuvens”, que geram um balanço adequado entre a energia sonora primária e tardia. O fosso de orquestra foi mantido e equipado com elevadores de última geração e em estado da arte. O balcão originalmente pensado como local para estudantes, foi reconfigurado para acomodar o coro circundando a orquestra, uma modificação vital para o suporte de grandes apresentações.

Com um volume aproximado de 7.800 m³ e capacidade para 530 lugares, a sala apresenta uma relação de 14,7 m³ por poltrona, o que se justifica visando o suporte acústico para a potência sonora de formações orquestrais de até 65 músicos. Esta relação volumétrica não é comum para salas de recitais, mas mostrou-se muito eficiente neste caso. Para diminuição do tempo de reverberação no espaço, foram instaladas cortinas motorizadas nas paredes laterais da plateia e palco. O palco também permite ajustes acústicos na sua parte inferior e que envolve a orquestra.
As faces internas das paredes são acabadas em argamassa e revestidas em madeira ou pintadas, tendo áreas cobertas por peças de madeira de dimensões variadas e que funcionam com difusores acústicos. A construção do envelope acústico é feito em paredes duplas de blocos de concreto de 19 cm e peso de 12 kg/bloco e blocos de 14 cm com peso de 10 kg/bloco preenchidos com groute. Os pisos são acabados em madeira.
Os dutos de ar-condicionado que ficaram expostos para o interior da Sala, devido a remoção do forro, foram alterados de retangulares para circulares, eliminando os revestimentos térmicos externos. A parte inicial da rede de dutos corre por fora do prédio e é toda construída em dutos retangulares metálicos e com revestimento interno em manta de lã de vidro própria para este uso e atenuadores de ruído. Extensões deste duto externo são encamisadas com lã de vidro e chapa de aço para reduzir a transmissão de som externo para o interior da sala. O sistema é de baixa velocidade do fan coil até as suas terminações.

A Sala do Baccarelli está num universo muito especial que não é nem das grandes salas de concertos com mais de 1200 pessoas nem as pequenas salas de câmara para 300 lugares. Situa-se na classe de salas de recitais, como é o caso da Sala Cecilia Meirelles, no Rio de Janeiro, ou a Sala do Cultura Artística, em São Paulo, para citar casos brasileiros. As salas de recitais recebem de pequenos conjuntos camerísticos até formações de aproximadamente 50 vozes instrumentais, podendo ser acompanhadas por coral. A potência sonora é mais elevada que as salas de câmara, mas menor que as salas de concerto, criando desafios instigantes para os balanços de loudness e reverberação.
A sala foi inaugurada em 25/11/2025 e recebida muito positivamente por músicos, público e crítica. Medições de parâmetros acústicos estão sendo analisados para publicação em breve.
Texto de José Augusto Nepomuceno
Pranchas base

Especificações Técnicas da Sala
- Largura do palco: 14,9 m
- Profundidade do palco: 8,8 m a 11,8 m
- Altura do palco: 1,0 m
- Altura do difusor (nuvem) em relação ao palco: 10 m
- Altura da laje com relação ao piso do palco: 13 m
- Dimensões totais da sala: 36 m (profundidade) x 19 m (largura)
- Altura na 1ª fila de poltronas: 14 m
Ficha Técnica
- Cliente: Instituto Baccarelli
- Prazo do projeto: 2005 (concepção) e 2023-2025 (revisão)
- Construção: 2024-2025
- Arquiteto do Complexo do Instituto Baccarelli: Todescan Siciliano
- Arquitetura da Sala de Concertos: Acústica & Sônica e Todescan Siciliano
- Acústica: Acústica & Sônica (José A Nepomuceno, Júlio Gaspar e colaboração de Paul Scarbrough)
- Mecânica Cênica e Iluminação Cênica: Acústica & Sônica (Júlio Gaspar)
- Ar-Condicionado: Fundament-Ar
Fornecedores / Instaladores:
- Mecânica Cênica: Hollywood Store + Gala Spiralift (elevador de palco)
- Cortinas acústicas motorizadas: Hollywood Store
- Acabamentos de madeira e pisos: Cox Port.
- Poltronas: Kastrup.