Michael Vorländer assume a ASA até maio de 2027 e projeta o futuro da acústica mundial
Michael Vorländer é o primeiro presidente não-estadunidense da Acoustical Society of America (ASA). Com formação em física e doutorado em simulação computacional acústica, Vorländer é uma das maiores autoridades mundiais em acústica técnica, com destaque para suas pesquisas em auralização, acústica de salas, acústica de edificações, psicoacústica e realidade virtual acústica. Sua eleição marca um momento histórico que sublinha a importância da internacionalização no avanço da acústica: “A ciência não progride sem cooperação internacional”, comenta, salientando que este é um princípio fundamental que orienta a ASA. Nossa conversa aprofundou-se nas estratégias futuras da acústica como um campo interdisciplinar por natureza. Vorländer comentou a relevância crescente do conceito de soundscape, um excelente exemplo da cooperação entre a psicologia, que contribui no entendimento da percepção humana, e a engenharia, que traz tecnologias para controle e isolamento do som. Além disso, o presidente falou como tecnologias emergentes, como a realidade virtual e a inteligência artificial, estão transformando a modelagem e a simulação de ambientes, permitindo o design de soluções futuras para espaços urbanos mais saudáveis e silenciosos. Um dos principais objetivos do empenho científico é tornar o conhecimento acústico acessível ao público para melhorar a saúde e o bem-estar da população.

A sua eleição como o primeiro presidente não-americano da ASA marca um momento histórico. Como o senhor enxerga o papel da internacionalização na evolução da acústica como ciência e prática profissional?
A ciência não progride sem cooperação internacional. Normalmente, os membros das sociedades, como a Sobrac e ProAcústica, têm membros de outros países. Na ASA há muitos membros da Ásia e da Europa há décadas. Minha eleição foi um processo natural, pois já estava ativo no conselho há mais de dez anos e muito integrado aos seus processos e estrutura.
A ASA tem forte tradição na produção de normas e publicações científicas. Quais são os principais desafios atuais na harmonização de padrões acústicos em escala global?
Temos organizações responsáveis pelas normas globais como a ISO (Organização Internacional de Normalização) e a IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional), para sistemas de áudio. Os métodos são descritos nessas normas internacionais, mas os números, como limites de níveis de ruído, por exemplo, são de responsabilidade nacional. Isso faz com que existam normas com limites diferentes entre os países. Por outro lado, os métodos de medição e cálculo são harmonizados, o que é importante para a comparabilidade dos dados.
A acústica é uma área notavelmente interdisciplinar, envolvendo engenheiros, arquitetos, psicólogos e músicos. Como essa diversidade contribui para avanços concretos na aplicação da acústica em ambientes urbanos?
A cooperação interdisciplinar é muito específica e muito importante para a acústica, pois é uma área interdisciplinar por natureza. Nós somos humanos, temos ouvidos, mas há o efeito do ambiente na propagação do som, que é parte da física, também existe a tecnologia, que é da engenharia. A biologia também é fundamental, como no estudo dos ruídos no mar, para os animais marinhos. Portanto, é um processo normal e essencial que estejamos sempre discutindo com outras disciplinas.
A crescente preocupação com o bem-estar e o conforto sonoro tem impulsionado o conceito de soundscape. Como a ASA tem se posicionado frente a essa abordagem mais sensorial e subjetiva da acústica?
Temos comitês técnicos em várias áreas, como um comitê de ruído e outro com as disciplinas de psicologia e fisiologia, que têm uma cooperação muito boa em projetos conjuntos. O soundscape é um excelente exemplo disso. Temos a contribuição da psicologia para entender e aprender sobre a percepção humana, enquanto os engenheiros de controle de ruído podem contribuir com sua experiência em propagação e isolamento sonoro.
O senhor é referência em acústica técnica e modelagem de ambientes. Quais tecnologias emergentes estão transformando a forma como projetamos e simulamos o desempenho acústico de espaços?
Trabalhamos muito com realidade virtual para apresentar soluções do futuro. Por exemplo, podemos simular como será um espaço urbano em 20 anos, apenas com veículos elétricos, ou estudar a intervenção de um parque dentro de uma cidade. A realidade virtual é uma ferramenta que permite que as pessoas escolham a solução preferida, auxiliando na tomada de decisões para o futuro.
A ASA tem investido em ações de diversidade e inclusão. Como essas iniciativas têm impactado a formação de novos profissionais e a renovação da comunidade científica?
Essa é uma questão muito pertinente no momento atual, especialmente considerando a situação política que enfrentamos, que pode ser bastante difícil. Claro que a ciência e o trabalho para melhorar as condições de vida das pessoas precisam de cooperação internacional, e a ASA vai dar continuidade a essas iniciativas o quanto puder.
Em tempos de urbanização acelerada e cidades densas, como a acústica pode contribuir para políticas públicas mais eficazes em relação à poluição sonora?
Podemos mostrar os problemas e também as soluções. É importante criar um acesso mais fácil para que a população em geral entenda os problemas de ruído e perceba que a acústica é fundamental para a saúde e o bem-estar. Organizações internacionais precisam realizar muitas atividades para mostrar a importância da acústica e torná-la um conhecimento público, em conjunto com jornalistas, além de boas oportunidades em mídias sociais.
O senhor recebeu a Medalha Rayleigh, uma das maiores honrarias da área. Como essa trajetória pessoal influencia sua visão sobre o futuro da acústica como campo estratégico?
A Medalha Rayleigh reforça minha convicção de que a integração entre a ciência e a aplicação prática é um caminho muito importante para o futuro da acústica. Este reconhecimento, que normalmente é concedido a pesquisadores com um sólido histórico de publicações, é um exemplo claro da importância de duas frentes de atuação. É essencial continuar o trabalho no campo acadêmico, produzindo conhecimento robusto, e igualmente crucial é o nosso dever em instruir engenheiros, médicos e outros profissionais sobre novos métodos e tecnologias que possam melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas.
O Inter-Noise 2025 teve como tema “Connections for a better sounding world”. Como o senhor avalia a escolha desse tema e sua relevância para os desafios contemporâneos da acústica?
O tema foi muito relevante, refletiu a essência do nosso campo: a ciência não avança sem cooperação internacional. E a realização do Inter-Noise no Brasil foi uma demonstração prática e muito importante desse princípio. Tivemos um número expressivo de participantes locais, um volume significativamente maior do que o observado nos congressos nacionais. Quando a comunidade internacional visita o país, isso cria um progresso imenso para a evolução da acústica localmente. Esse intercâmbio é fundamental.
O senhor coordenou, durante o Inter-Noise, as sessões sobre soundscape em ambientes construídos. Quais avanços técnicos e metodológicos têm surgido nessa área e como eles podem ser aplicados em projetos reais?
Atualmente existe uma norma para métodos de análise de soundscape. Muitas apresentações no Inter-Noise fizeram referência a ela, enquanto outras trouxeram novas visões para ampliar os métodos existentes, que foram muito interessantes. Algumas delas trouxeram métodos de realidade virtual, e outras propõem novos conhecimentos de psicologia. Outras ainda demonstram como grupos específicos, como crianças, percebem o som de forma diferente a adultos ou idosos. A percepção das crianças é muito diferente da dos adultos, não apenas por fatores biológicos, como o tamanho do canal auditivo e da própria cabeça, mas também porque o cérebro funciona de maneira diferente. Por isso, soluções específicas são necessárias para ambientes como salas de aula.

A América Latina tem ampliado sua atuação em pesquisa e regulamentação acústica. Que oportunidades o senhor vê para uma maior colaboração entre a ASA e entidades como a ProAcústica e Sobrac?
Atualmente a organização que faz congressos como o Inter-Noise é o I-INCE, que acredito ser a melhor instituição para essa discussão. Dentro dos congressos anuais, há grupos de trabalho para discutir essas questões. O I-INCE tem cerca de 40 membros representantes dos países, como a ASA, Sobrac e ProAcústica.
Como convidado do XXXI Encontro da Sobrac 2026, em Ouro Preto, onde o tema central é o impacto e as intervenções no patrimônio histórico, qual será o assunto de sua apresentação?
As simulações são utilizadas há muito tempo para a reconstrução de ambientes que não existem. No fundo, todo filme histórico é uma tentativa de recriar o passado. Para que o resultado de um ambiente criado artificialmente seja correto não apenas visualmente, mas também acusticamente, os efeitos acústicos que ocorrem durante a propagação do som devem ser levados em conta com precisão suficiente. Minha palestra trata de novos resultados na acústica virtual por meio de modelos eficientes para a difração e o espalhamento do som em bordas e superfícies estruturadas. Embora o patrimônio cultural histórico não seja o foco central da palestra, há muitos casos de aplicação interessantes para espaços históricos, tanto internos quanto externos, justamente porque a arquitetura histórica possui muito mais ornamentos estruturais do que a arquitetura moderna.
Como as ferramentas modernas de simulação e realidade virtual acústica podem ser utilizadas hoje não apenas para restaurar o som original de teatros e igrejas históricas que sofreram degradação ao longo dos séculos, mas também para documentar e salvaguardar a ‘memória sonora’ imaterial de monumentos mundiais, como os que vemos em Ouro Preto?
Em primeiro lugar, é possível gravar o som da cidade. Isso captaria a situação atual com as fontes sonoras existentes no ambiente atual. Mais interessante é uma solução mais flexível, na qual o ambiente e as fontes sonoras sejam considerados individualmente. É exatamente isso que a acústica virtual faz. Os modelos de propagação do som já estão bastante avançados, e os resultados são muito realistas. Vou demonstrar isso na palestra usando como exemplo uma simulação de Copacabana, no Rio de Janeiro. No entanto, no que diz respeito à memória sonora histórica, o problema não é tanto a propagação do som, mas sim a seleção correta das fontes. No contexto histórico, havia fontes sonoras totalmente diferentes das atuais – carruagens puxadas por cavalos, carrinhos de madeira, ferreiros, sinos etc. -, além de atividades humanas. Sem conhecimento histórico e sem uma boa análise de textos históricos, não é possível criar uma simulação. Precisamos de mais colaboração com historiadores. Isso já foi feito com frequência em trabalhos sobre teatros e igrejas históricos, mas, essencialmente, o que importa são apenas os sons de instrumentos musicais antigos ou estilos de canto antigos. No caso dos sons urbanos, é preciso primeiro pesquisar quais fontes de som realmente existiam no ambiente em questão. Se for possível, a partir das descrições documentadas da acústica, gravar ou sintetizar fontes sonoras, será possível realizar uma simulação de uma cena urbana histórica.
Cidades históricas enfrentam um dilema delicado: a necessidade de modernização urbana e controle do ruído/vibrações vs. as severas restrições físicas de preservação de seus materiais originais (como o quartzito e a madeira do barroco mineiro). Diante das novas tecnologias de processamento de sinais e sensores que o senhor tem acompanhado globalmente, quais são as abordagens metodológicas mais promissoras para prever e mitigar os impactos de vibrações estruturais e ruído urbano no patrimônio construído sem descaracterizar a arquitetura histórica?
Já existem modelos de simulação bastante eficientes na mecânica dos solos e na engenharia de vibrações, bem como normas com valores-limite para a transmissão de vibrações em edifícios. Acho que os colegas da área de vibrações enfrentam os mesmos desafios que nós, na área de acústica, ou seja, obter bons modelos de materiais e boas premissas para a concepção das estruturas dos edifícios, suas ligações, suas fundações e sua interação com o solo. As abordagens mais promissoras são, sem dúvida, os métodos de redes de sensores, que utilizam muitos sensores, fusão de informação, e inteligência artificial na interpretação dos sinais.
