Os 15 anos de atuação da ProAcústica celebram a maturidade do setor e um legado de muitas conquistas
Em uma trajetória marcada pelo protagonismo técnico, a ProAcústica atinge seu marco de 15 anos (2011-2026) consolidada como a voz de um setor que ela mesma ajudou a amadurecer. Atuando como porta-voz entre indústrias, consultores, laboratórios, academia e legisladores, a associação liderou uma revolução silenciosa na construção civil nacional, transformando o ruído urbano de um incômodo inevitável em um problema com solução científica e legal.

A autonomia institucional da ProAcústica, que hoje conta com em torno de 100 empresas associadas, foi construída sob um modelo de negócio resiliente. Alberto Safra, Vice-Presidente Administrativo Financeiro, explica que “o grande aprendizado foi entender o ritmo próprio de uma entidade como a nossa, construindo históricos de receita e criando novas entradas além das contribuições associativas. Nos momentos de receita mais folgada, investíamos em projetos maiores. Nos momentos mais enxutos, ajustávamos o passo”.

Essa diversificação de receitas foi estratégica para blindar a isenção da entidade. Conforme ele complementa, “uma associação técnica que depende financeiramente de um grupo restrito de associadas perde autonomia para falar com isenção. O trabalho que fizemos foi construir uma base financeira diversificada e transparente para que a ProAcústica pudesse se posicionar com neutralidade”.
Essa busca por representatividade e governança firme, a ProAcústica se inspirou em referências internacionais. Juan de Frias Pierrard, Vice-Presidente de Recursos Associativos, destaca a inspiração da criação da entidade. “Pautado no modelo europeu associativo de aproximação de empresas, atuamos fortemente para consolidar a governança de recursos da ProAcústica. Nossa missão é expandir a base e oferecer instrumentos práticos e sustentáveis que gerem valor real às empresas associadas.”
Com essa base sólida, a associação teve a força necessária para acompanhar e impulsionar uma mudança profunda na construção civil brasileira, especialmente após um marco legislativo fundamental. Cândida de Almeida Maciel, Vice-Presidente de Relações com o Mercado, relembra esse ponto de virada. “A entrada em vigor da ABNT NBR 15575 Norma de Desempenho, que se tornou obrigatória em 2013, foi um marco importante. A partir dela, as próprias construtoras perceberam que a qualidade acústica influencia diretamente a experiência dos moradores e a reputação do empreendimento.”
Como reflexo direto desse amadurecimento, Maciel observa uma mudança de postura no setor. “Hoje, é cada vez mais comum encontrarmos incorporadoras que antes buscavam apenas atender ao mínimo e que agora especificam desempenho intermediário ou superior. A acústica passou a ser reconhecida como um diferencial competitivo de valor.”
Capacitação do setor
Para dar suporte a essa nova demanda de mercado, a ProAcústica ativou seus comitês técnicos para traduzir normas complexas em ferramentas práticas. A produção de conhecimento gratuito e acessível tornou-se o principal motor de capacitação do setor.
José Augusto Nepomuceno Neto, Vice-Presidente de Atividades Técnicas, ressalta que “os comitês tiveram papel fundamental em dar suporte técnico e esclarecimento para temas que fazem parte do dia a dia da construção civil brasileira, mas que são envoltos em complexidade. Penso que a publicação dos Manuais e Guias é o papel mais decisivo”.
O resultado desse conteúdo técnico gerou uma série de publicações e estendeu-se por diversas frentes de atuação ao longo dos anos. Essas iniciativas englobam desde a atualização de normas fundamentais — como o Manual ProAcústica sobre a Norma de Desempenho ABNT NBR 15575:2021 e o Manual ProAcústica e Cetesb Norma ABNT NBR 10151:2019, voltado ao ruído em áreas habitadas — até diretrizes focadas na qualidade em espaços coletivos. Destacam-se, nesse cenário, o desenvolvimento do Manual para a Qualidade Acústica em Escolas – essencial devido ao impacto direto do barulho no aprendizado -, o Manual para a Qualidade Acústica para Auditórios e o Manual ProAcústica de Acústica Básica, concebido como um guia prático e orientativo para fornecer aos profissionais envolvidos informações claras sobre os conceitos e terminologias da área.
Além disso, a associação avançou no ordenamento das cidades com a publicação do Guia ProAcústica para Mapas de Ruído Urbano que descomplica uma das principais ferramentas utilizadas para o diagnóstico e gerenciamento do ruído nas cidades: os Mapas de Ruído. E, mais recentemente, publicou o Guia ProAcústica para Ruído das Academias: boas práticas de projetos, que responde dúvidas e necessidades de construtores, incorporadores, condomínios, usuários e projetistas em geral, abordando problemas de ruído frequentemente encontrados em academias de ginástica em diferentes tipos de edificações.

Maturidade técnica e institucional
Já com a exigência do mercado de garantias práticas de precisão, nasceram iniciativas como o QualiLab (Programa ProAcústica de Qualificação de Laboratórios de Ensaio) e o Selo ProAcústica de Qualidade, que passaram a auditar o desempenho real das edificações e dar segurança ao comprador final.
Essa integração técnica é reforçada por Maciel, que aponta o papel do programa InterLab (já em sua 7ª edição). “O programa promove comparações interlaboratoriais entre laboratórios de ensaios acústicos, contribuindo para a qualificação técnica, confiabilidade dos resultados e incorporação rápida de inovação no mercado.”


O ápice dessa maturidade técnica e institucional ocorreu globalmente com a realização do Inter-Noise 2025 no Brasil. Organizado em parceria com a Sobrac (Sociedade Brasileira de Acústica), o maior congresso mundial de engenharia de controle de ruído validou a competência nacional e colocou o país na vanguarda do setor de soundscape urbana.
Esse protagonismo internacional transformou a capital paulista no epicentro do debate científico global, contando com a chancela e o apoio fundamental do I-INCE (Instituto Internacional de Engenharia de Controle de Ruído), o órgão máximo que coordena o setor mundial. A relevância desse respaldo atraiu uma comitiva histórica de palestrantes internacionais, especialistas renomados, pesquisadores e acadêmicos vindos de diversos continentes, além de representantes das principais indústrias globais. Mais do que uma vitrine para as soluções de ponta desenvolvidas no Brasil, o evento promoveu debates de altíssimo nível técnico que funcionaram como um divisor de águas institucional para a ProAcústica, deixando um legado de intercâmbio tecnológico que consolidou os comitês nacionais perante a comunidade internacional.


Bem-estar e conscientização social
A consolidação de dados técnicos rigorosos só ganharia força se fizesse sentido para a população. A estratégia da associação foi olhar para a saúde, bem-estar e conscientização social. Para Paula Marcilli Petroni, Vice-Presidente de Comunicação e Marketing, “a ProAcústica sempre entendeu que falar de acústica é falar de pessoas. Ao longo dos últimos 15 anos, traduzimos temas técnicos em mensagens acessíveis, mostrando que o excesso de ruído impacta o sono, a concentração, a produtividade e a saúde mental”.
O amadurecimento dessa comunicação conectou definitivamente o conforto acústico à saúde pública. “Iniciativas como o INAD (Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído), realizados com intervenções urbanas desde 2022 em várias cidades brasileiras, ajudaram a ampliar o debate além do setor técnico. Nos últimos anos, reforçamos isso com o conceito “A vida é melhor sem barulho”. Quando as pessoas compreendem que o conforto acústico influencia sua saúde, passam a exigir melhores edificações e cidades mais equilibradas”, complementa Petroni.
O marco de 2026 e o caminho ao Planalto Central
Toda essa bagagem acumulada convergiu para uma virada histórica recentemente. No dia 27 de abril de 2026, durante a 4ª Conferência Municipal sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora no Plenário da Câmara Municipal de São Paulo, a ProAcústica e a DespoluiçãoSonora.org lideraram a articulação de um Projeto de Lei inédito para a criação do Plano Municipal de Despoluição Sonora.
O evento contou com a presença internacional do professor Francesco Aletta (UCL), autor do relatório Frontiers da ONU, e utilizou simulações computacionais complexas – como o Mapa de Ruído da Avenida Paulista – para demonstrar o efeito “cânion” do som rebatido nos edifícios, além de apresentar estudos detalhados sobre o impacto de aeroportos e eixos de transporte sobre trilhos.
O sucesso dessa ocupação política define o tom do futuro da associação, que agora mira a esfera federal. Segundo Nepomuceno, “a ProAcústica é hoje um centro de referência e discussão com capacidade de resposta muito rápida às questões colocadas por diversos setores da sociedade civil e de organismos públicos. Vejo que no futuro breve ela terá um papel decisivo no incremento de conhecimento técnico e científico, de apoio a legisladores e pesquisadores, muito semelhante aos órgãos de classe profissional e entidades de pesquisa”.
Para garantir que esse protagonismo continue se expandindo com a mesma saúde institucional, a governança segue se estruturando para as próximas décadas. Como bem finalizaSafra, “estamos trabalhando em normas de gestão para assegurar políticas de caixa responsáveis no futuro. Essa solidez é o legado mais duradouro que vamos entregar”.
Aos 15 anos, a ProAcústica demonstra que o silêncio planejado e o som de qualidade não são meros luxos, mas a base estrutural para um Brasil mais saudável, produtivo e sustentável.
Os caminhos da acústica no Brasil na voz de seus presidentes
Davi Akkerman (Fundador e idealizador da ProAcústica, de 2011 – 2015 / 2 mandatos)

“A inspiração para criar a associação surgiu em junho de 2010, durante o congresso Inter-Noise em Lisboa. Lá, assisti a uma palestra do Juan Frias, na época gerente técnico da Associação Espanhola para Qualidade Acústica (AECOR). Ele explicou como a entidade era consolidada na Espanha, unindo consultores e fabricantes, e o papel fundamental que desempenhavam na elaboração da norma de desempenho espanhola. Aquilo me motivou profundamente a buscar um modelo similar para o Brasil.
Naquela época, o mercado nacional de acústica estava desunido. A Sociedade Brasileira de Acústica (Sobrac), única entidade representativa do setor, possuía um perfil predominantemente acadêmico, focado em universidades e estudantes, carecendo de influência nos órgãos normativos e de uma união real entre os profissionais de mercado. Como o setor estava fragmentado, a condução da norma de desempenho brasileira estava sendo feita pelo Secovi e pelo Sinduscon, com o apoio do IPT, mas totalmente sem a participação ativa ou troca de ideias com os especialistas em acústica.
Logo ao retornar ao Brasil, aproveitei uma comemoração de 10 anos da Associação Drywall para apresentar a ideia de criar essa força. O apoio foi imediato por parte de grandes empresas, como a Saint-Gobain e a Knauf. O nome escolhido, ‘Associação Brasileira para Qualidade Acústica’ (ProAcústica), foi uma inspiração direta e homônima ao modelo de sucesso espanhol. Já a abreviação ‘ProAcústica‘ foi uma feliz sugestão do professor João Baring, da FAUUSP, refletindo perfeitamente a ideia de estarmos reunindo os ‘profissionais de Acústica’.
Para tirar o projeto do papel e dar peso técnico, recrutamos representantes de empresas como Aubicon e Vibranihil, além de consultorias de peso como a Harmonia, Acústica Engenharia e Audium. O projeto também ganhou força com a validação de especialistas influentes da época, como o Peter Barry, do IPT, e o professor João Baring.
No início, com poucos recursos, nossa estratégia foi aproveitar a estrutura de eventos de acústica que já existiam. Além disso, sugeri trazermos o Juan Frias da Espanha para palestrar no Brasil – uma iniciativa apoiada financeiramente pela Isover Saint-Gobain e que foi crucial para dar visibilidade ao projeto nascente. Como não tínhamos sede própria nos primórdios, os encontros iniciais foram realizados dentro do Instituto de Engenharia de São Paulo, um espaço que conseguimos devido à influência do meu pai, Schaia Akkerman, que era diretor da divisão de acústica do instituto na época. Foi lá que realizamos o evento de lançamento oficial da associação, a nossa ‘pedra fundamental’, no início de 2011.
Nesse período de consolidação, a ProAcústica nasceu buscando agilidade, capacidade de mobilização de recursos e uma visão empresarial forte e voltada ao mercado. Nossa rotina de reuniões de comitê da diretoria acontecia quinzenalmente no escritório da AtenuaSom, um espaço generosamente cedido pelo Edison Claro.
A Norma de Desempenho (NBR 15575) foi lançada em 2013 e mudou o mercado, e a ProAcústica teve uma atuação absolutamente crucial nesse processo. Quando a primeira versão do texto foi apresentada, o mercado da construção civil reagiu de forma muito negativa. Diante desse impasse, a associação interveio diretamente e trabalhou junto à ABNT para criar grupos de trabalho dedicados. Passamos dois anos aprimorando e refinando tecnicamente cada um dos critérios da norma antes de seu lançamento definitivo.
Como as normas técnicas costumam ser de difícil leitura para quem está no canteiro de obras, resolvemos o desafio desenvolvendo o primeiro Manual da Norma de Desempenho. Coordenado por mim e pelo Juan Frias – que a essa altura já tinha se estabelecido no Brasil -, criamos um material altamente didático, ilustrado e de ampla distribuição. Esse manual foi a ferramenta fundamental para mudar a mentalidade das construtoras sobre a importância real dos índices de desempenho acústico.
No início, existia um forte preconceito das construtoras e de entidades ligadas a elas, como o próprio Secovi, que resistiam fortemente ao tema. Havia um receio generalizado de que o conforto acústico fosse percebido como um ‘luxo’ desnecessário que acabaria encarecendo ou depreciando o valor dos imóveis. Com o tempo e o rigor do trabalho técnico da ProAcústica, conseguimos reverter completamente essa percepção, estabelecendo o conforto acústico não como um capricho, mas como um ativo de saúde indispensável nas edificações.
Em determinado momento, percebemos que precisávamos expandir nossa atuação para além das paredes dos edifícios, focando na poluição sonora ambiental e levando essa pauta diretamente para o poder público. Passamos a implementar ações de grande impacto, como o International Noise Awareness Day (INAD), e a realizar conferências anuais na Câmara Municipal de São Paulo com o objetivo de conscientizar a população e os governantes sobre os malefícios severos do ruído na saúde humana.
Essa aproximação com o legislativo paulistano gerou frutos práticos e contou com o apoio político fundamental dos vereadores André Matarazzo e Aurélio Nomura. Através dessa parceria com a Câmara, a ProAcústica trouxe especialistas internacionais ao Brasil, como o professor português Bento Coelho, para discutir e planejar a implementação de mapas de ruído por aqui, seguindo os consolidados modelos europeus adotados em cidades com mais de 200 mil habitantes.
Por fim, a associação participou ativamente da revisão da NBR 10151 entre 2015 e 2019. Para garantir que essa norma fosse aplicada de verdade na fiscalização das ruas, logo após a publicação de sua nova versão, a ProAcústica firmou uma parceria estratégica com a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). Juntos, nós elaboramos um manual explicativo detalhado sobre a regulamentação, oferecendo um suporte técnico real e robusto para subsidiar os órgãos públicos na fiscalização e no combate à poluição sonora no dia a dia.”
Edison Claro de Moraes (Fundador e atual presidente do Conselho Administrativo da ProAcústica) (2016 – 2019 / 2 mandatos)

“O começo da ProAcústica foi bem duro, porque na verdade tínhamos apenas uma ideia na cabeça. Eu, o Davi Akkerman e o Carlos Caruy nos reunimos para entender como tirar o projeto do papel. Decidimos chamar as empresas que já conhecíamos para apresentar a proposta, pois não tínhamos verba para nada. Eu disse para o Davi que precisávamos oferecer um café da manhã, pois não dava para deixar o pessoal ‘a seco’, senão ninguém viria. Nós mesmos cotizamos e dividimos a conta do próprio bolso. Fizemos uns quatro ou cinco cafés para um grupo que começou com 10 pessoas e depois cresceu para 30 até 40.
Apesar das dificuldades, desde o primeiro momento tive a certeza de que daria certo. Dava para sentir uma energia muito forte no ar. A acústica era – e ainda é – algo extremamente desconhecido, mas ali era o nosso ponto de partida e eu confiei. Como ainda não tínhamos recursos, passamos o chapéu entre os 10 primeiros que toparam ajudar com os custos e eu ofereci o espaço da minha própria empresa para realizarmos as reuniões. Ela acabou virando a nossa sede por muitos anos para amenizar os custos. Naquela época, todas as reuniões eram presenciais, não tínhamos a facilidade do vídeo. Tenho muito orgulho de ter ajudado dessa forma.
Eu enxergo uma associação como um espaço de compartilhamento. Aprendi que as minhas dores no mercado eram as mesmas dos outros e, por incrível que pareça, quando você compartilha – tanto as dores quanto as coisas boas -, tudo parece que ameniza. A ProAcústica tem a enorme vantagem de ser muito heterogênea. Ela permeia diversos segmentos da construção civil, você se senta na mesma mesa com o pessoal do drywall, do piso, dos forros e revestimentos, das esquadrias, da consultoria e da engenharia. É um aprendizado constante.
Se não for com paixão, não funciona. Quando as pessoas me perguntavam qual era a vantagem de se associar à ProAcústica, eu sempre respondia: ‘nenhuma, se você não tiver uma ideia de cooperação e não entender que, juntos, vamos fazer o mercado de acústica crescer para todos. Se não for para pensar assim, é melhor nem vir’. Estar na associação significa conviver com os líderes do mercado, com as pessoas que ditam as tendências, que conhecem o mundo e trazem informações inovadoras. Só isso já faz valer muito a pena todo o engajamento.
Olhando para a minha trajetória de liderança, considero que um dos nossos maiores feitos foi a criação da ‘Ilha da ProAcústica’ dentro de uma grande feira de negócios. Conseguimos reunir entre 10 e 15 fabricantes em um único espaço. Como a maioria ali não era concorrente direto, a força de um indicar o outro foi fantástica. É um modelo de sucesso que existe e funciona muito bem até hoje.
Outro marco que ficou muito gravado para mim foi a ação social na Escola Amorim Lima. Foi um trabalho maravilhoso e totalmente voluntário da nossa parte, onde juntamos várias empresas associadas para adaptar as instalações com o conforto acústico necessário. Esse projeto demonstrou na prática a força de transformação que a ProAcústica pretendia ter, unindo com perfeição o lado empresarial, através da Ilha, e o lado social.
Sobre o Plano Municipal de Despoluição Sonora que tramita na Câmara agora em 2026, eu, particularmente, tenho minhas dúvidas se ele vai sair do papel de forma efetiva. É triste dizer isso, mas esbarramos em muitos interesses políticos e no fato de que a própria prefeitura e o poder público gerenciam alguns dos maiores poluidores sonoros da cidade, como os eventos no Autódromo de Interlagos, os shows e o barulho na Avenida Paulista, todos em São Paulo.
Por outro lado, se a legislação realmente pegar – mesmo que parcialmente -, a nossa indústria e os nossos profissionais estão extremamente preparados. O mercado de monitoramento vai crescer muito e temos tecnologia e pessoas muito competentes para isso. Eu costumo dizer que o Brasil detém o conhecimento da ciência mundial da acústica; o que nos falta é a ciência aplicada na mesma escala de outros países, muito por conta da falta de recursos e do abismo social em que vivemos. Mas a competência técnica instalada aqui é altíssima. Se a lei exigir, o mercado brasileiro tem capacidade de transformar essa realidade do dia para a noite.”
Luciano Nakad Marcolino (Presidente de 2020 – 2023 / 2 mandatos)

“O maior desafio técnico quando assumi a presidência foi transformar um conhecimento altamente especializado em informação acessível e aplicável por todos os agentes da cadeia da construção civil. Naquela época, o conhecimento ainda estava disperso entre fabricantes, consultores, universidades e laboratórios. Havia uma necessidade clara de evoluir na uniformidade de interpretação desses conceitos. Nossa preocupação nunca foi simplificar a acústica, mas traduzir seus fundamentos para uma linguagem que permitisse a arquitetos, engenheiros, construtores e incorporadores tomar decisões corretas desde a fase de projeto. Os manuais da ProAcústica nasceram justamente com esse propósito: criar referências técnicas confiáveis, baseadas em normas e evidências, independentes de interesses comerciais.
É importante destacar que esse trabalho foi uma construção contínua. Tive a honra de dar sequência ao legado iniciado pelos dois presidentes que me antecederam (entre 2011 e 2019), período em que foram lançadas as bases institucionais e técnicas da associação.
Durante minha gestão, entre 2020 e 2023, buscamos ampliar e consolidar essas conquistas ao lado de diretores, coordenadores de comitês técnicos e associadas.
Mesmo enfrentando os desafios da pandemia da Covid-19 em 2020 e 2021, que exigiu rápida adaptação, criamos o programa “Sempre Conectados“, garantindo a proximidade do ecossistema da associação e a continuidade dos trabalhos técnicos em um momento de grandes incertezas. Além disso, fortalecemos a aproximação com instituições de grande credibilidade, como o IPT, a Cetesb e a ABNT. Um dos grandes marcos desse esforço conjunto com a ABNT e a Sobrac foi a criação do Comitê Brasileiro de Acústica (CB-196), em 24 de novembro de 2022.
Fazer com que marcas concorrentes diretas se sentassem à mesma mesa nos comitês técnicos talvez tenha sido um dos maiores diferenciais da ProAcústica desde sua fundação. Dentro da associação, construiu-se um ambiente de confiança em que o interesse coletivo e o amadurecimento do mercado foram colocados acima das diferenças comerciais. Naturalmente, sempre houve opiniões diversas e discussões profundas, mas o respeito e a maturidade técnica prevaleceram, permitindo a construção de documentos e normas que hoje beneficiam toda a sociedade.
Outro salto fundamental deu-se na área de ensaios e medições. Antes do surgimento do InterLab e do Selo QualiLab, o mercado sofria com uma grande variabilidade de resultados para uma mesma situação, gerando imensa insegurança jurídica para construtores, fabricantes e até para o Poder Judiciário. Essas iniciativas mudaram o jogo ao estabelecer critérios claros de comparação, qualificação e melhoria contínua dos laboratórios. Hoje, em 2026, colhemos os frutos desse avanço: as avaliações seguem procedimentos uniformes e com competência técnica reconhecida, trazendo segurança para a cadeia produtiva e, principalmente, para o usuário final.
A ProAcústica nasceu muito focada nas edificações e agora, aos 15 anos, atua fortemente nas políticas públicas. O próximo grande passo é consolidar definitivamente a acústica como um tema de saúde pública, qualidade de vida e sustentabilidade urbana. Vejo a associação ampliando ainda mais sua interlocução junto aos gestores públicos, movimentos da sociedade civil e órgãos reguladores.
Olhando para o Plano Municipal de Despoluição Sonora que agora tramita na Câmara, fica claro que a indústria nacional – que investiu significativamente no desenvolvimento de materiais, sistemas construtivos e inovação nos últimos anos – tem um papel estratégico. Não basta apenas cumprir exigências legais; é necessário que o setor produtivo participe ativamente da construção das soluções, garantindo que qualquer regulamentação seja baseada em critérios técnicos, previsibilidade e diálogo.
Tenho enorme orgulho de ter presidido a associação por dois mandatos. A história da ProAcústica é, acima de tudo, a prova de que a cooperação e a construção coletiva são as ferramentas mais poderosas para a evolução da engenharia e da sociedade.”
Marcos Holtz (Presidente Executivo da ProAcústica em exercício desde 2024)

Servir à ProAcústica tem sido uma jornada de transformação de longo prazo. Foram seis anos como Vice- Presidente de Atividades Técnicas (de 2018 a 2023) e, desde 2024, tenho a honra de estar como presidente executivo. Olhando para essa trajetória, vejo que o nosso maior legado foi colocar a questão acústica definitivamente em pauta, ajudando os setores técnicos e a sociedade civil a entenderem melhor como o som se relaciona com a maneira como moramos, estudamos e trabalhamos.
Essa quebra de paradigma no mercado da construção foi fruto de muito trabalho. Consolidamos conquistas históricas, como a revisão da parte acústica da ABNT NBR 15575, a criação do Comitê Brasileiro de Acústica na ABNT (mantido pela ProAcústica em parceria com a Sobrac) e a tradução e adoção de todas as normas acústicas ISO referenciadas pela norma de desempenho. Também entregamos ferramentas fundamentais como o mapa piloto e o mapa do Centro da Cidade de São Paulo, o Programa Interlaboratorial e o Selo QualiLab ProAcústica – uma resposta direta à necessidade do setor por laboratórios qualificados e confiáveis com as novas normas em vigor.
Para convencer um mercado tradicionalmente focado em custos, como o imobiliário, de que o isolamento acústico não é um gasto extra, mas um valor indispensável, nossa estratégia foi mudar o foco do debate. A questão acústica vai muito além do conforto: ela é uma questão de saúde pública. Ao trazer dados, informações e manuais fundamentais (como o de Classe de Ruído e o da Norma de Desempenho NBR 15575), demos ao mercado as ferramentas necessárias para entender e propor soluções para os problemas acústicos urbanos e residenciais que vivemos hoje.
Para manter a ProAcústica como uma voz técnica ouvida e respeitada pelo poder público, estabelecemos uma estratégia clara: manter um canal sempre aberto de comunicação com diversos setores da sociedade. Isso se materializou em ações conjuntas com a Prefeitura de São Paulo e a Cetesb – a exemplo da publicação do Manual da ABNT NBR 10151 -, em forte interlocução com entidades da Construção (como Secovi, Sinduscon e CBIC) e no engajamento com a sociedade civil. Um exemplo marcante disso foi a nossa caminhada, esse ano, na Avenida Paulista reivindicando por novos fiscais do Psiu, realizada em conjunto com o movimento Despoluicaosonora.org.
No que tange ao mapeamento de ruído urbano e à mitigação de impactos em canteiros de obras, sabemos que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer, mas as sementes foram plantadas. Em 2024, publicamos o Guia ProAcústica para Mapas de Ruído e, recentemente, estivemos em Brasília, no Ministério do Meio Ambiente, reunidos com o Secretário Adalberto Felicio para discutir novas políticas de gerenciamento de ruído em escala nacional.
Também avançamos muito na conscientização pública através das campanhas anuais do INAD, com intervenções urbanas emblemáticas, como a colocação de fones de ouvido gigantes no Monumento às Bandeiras e na escultura da Baleia, em São Paulo, e no Laçador, em Porto Alegre. Já em relação ao ruído de obras, enfrentamos um momento desafiador: o decreto de ruído de obras da cidade de São Paulo foi anulado por ser considerado inconstitucional, nos deixando em um vácuo legislativo. Diante disso, estamos atuando intensamente na Câmara Municipal para dar suporte técnico aos projetos em tramitação. Nosso objetivo é construir uma lei justa, coerente e que inclua regras claras para proteger a saúde da população.
Essa relevância técnica nacional ganhou eco global com a realização do Inter-Noise no Brasil, um feito histórico e um dos pontos mais altos da nossa gestão. Foi um momento inesquecível que colocou o país, durante uma semana, no centro das discussões globais de controle de ruído. O intercâmbio com os maiores especialistas do mundo nos trouxe novas possibilidades de cooperação internacional, conectando diretamente a pesquisa feita no Brasil com o cenário global e elevando o patamar técnico do que é projetado e construído aqui.
Olhando para o futuro, nosso compromisso com as metrópoles do amanhã continua firme. Durante a 4ª Conferência Municipal sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora, participamos ativamente da articulação do Projeto de Lei que propõe a criação do Plano Municipal de Despoluição Sonora. As discussões seguem avançando na Câmara Municipal de São Paulo, contando com o apoio de vereadores de todos os espectros políticos. A aprovação desse projeto colocará São Paulo em um patamar muito mais civilizado de gerenciamento ambiental e preservação da saúde. É um chamado à ação que continuaremos liderando, pavimentando o caminho para que nossas cidades possam, finalmente, começar a silenciar.”