19º Vidrosom coloca o silêncio no centro do debate sobre o futuro das edificações
O silêncio deixou de ser apenas uma condição desejável dentro dos edifícios para se transformar em requisito de desempenho, saúde, bem-estar e qualidade de vida. Foi a partir dessa premissa que o 19º Vidrosom – Seminário de Soluções Acústicas em Vidro reuniu especialistas, pesquisadores e profissionais da indústria no São Paulo Expo, durante a Fesqua 2026 – Feira Internacional da Indústria de Esquadrias. A ProAcústica participou como apoiadora institucional e de divulgação do encontro.
Um dos pontos altos da edição foi o lançamento do livro “O silêncio é disputado”, de Edison Claro de Moraes, idealizador do Vidrosom e da Universidade do Som, cofundador e atual presidente do Conselho Administrativo da ProAcústica, e profissional com mais de quatro décadas de atuação no setor. A publicação reúne mais de 160 páginas com fotografias, diagramas e estudos de caso e procura aproximar o conhecimento acústico do cotidiano de quem projeta, fábrica, especifica e instala esquadrias.

Ao longo de quase duas décadas, o Vidrosom consolidou-se como um espaço de intercâmbio técnico entre os mercados de vidro, esquadrias, fachadas e acústica. Segundo a organização, mais de 6 mil profissionais já participaram de suas edições.
Neste ano, o próprio título escolhido para o encontro – “O silêncio é disputado” – antecipou a discussão que atravessou as apresentações. Afinal, conforto acústico não depende de um único produto, de uma determinada espessura de vidro ou de um número apresentado em um laudo. É resultado de projeto, caracterização correta da fonte sonora, vidro, esquadria, vedação, ferragens, execução, instalação e, principalmente, da compreensão de como aquele ambiente será efetivamente utilizado.
Para Edison, colocar essa trajetória no papel era um projeto antigo. “O livro foi um sonho, a possibilidade de colocar no papel toda essa experiência. Na acústica de esquadrias, eu procurei referências específicas e encontrei muito pouco. O tema aparece em capítulos de livros de acústica, mas não como uma ferramenta voltada diretamente para esse mercado”, afirmou.
Segundo ele, a publicação nasceu justamente da percepção de que faltava um material capaz de transformar experiências acumuladas em ferramenta de desenvolvimento para o setor. Os exemplos apresentados partem de situações reais enfrentadas ao longo da carreira, inclusive aquelas menos convencionais. A preocupação foi também fugir de uma publicação restrita aos especialistas. “Tirei as fórmulas e as partes mais complexas e procurei deixar uma linguagem acessível, para que todo mundo realmente pudesse aproveitar”. Edison lembra, porém, que o conhecimento é permanentemente renovado pela pesquisa e pela prática: para ele, o próprio lançamento já abre espaço para revisões futuras, à medida que novas soluções, materiais e estudos avançam.


Fotos: Arquivos da organização do Seminário
O seminário
Essa visão esteve presente em toda a programação do Vidrosom. Mais do que procurar respostas simples para perguntas como “qual é o melhor vidro?”, os especialistas demonstraram que a acústica exige análise do conjunto e, principalmente, do problema que se pretende resolver. De acordo com Fernando Westphal, engenheiro e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não existe “o melhor vidro” para todas as situações. Na palestra “Como prever o desempenho acústico de um vidro”, partiu justamente de uma das perguntas mais recorrentes do setor, qual composição proporciona maior isolamento acústico?
A primeira conclusão apresentada foi que comparações precisam considerar condições equivalentes. Quando se compara a mesma espessura total de vidro, explicou Westphal, o laminado tende a apresentar desempenho acústico superior ao monolítico e, em muitas situações, ao insulado. O motivo não está simplesmente no aumento da massa, mas na película intermediária de PVB do laminado, que contribui para o amortecimento da vibração e para a dissipação de energia sonora. “O laminado tem melhor desempenho porque o PVB ajuda no amortecimento, como o amortecedor de um carro. Ele dissipa aquela energia sonora dentro da composição”, explicou.
Westphal ressaltou ainda que o vidro float e o vidro temperado de mesma espessura apresentam comportamento acústico semelhante; a têmpera deve ser especificada principalmente por requisitos de segurança e resistência, e não como recurso para aumentar isolamento sonoro. Também chamou a atenção para as limitações de se avaliar uma solução exclusivamente pelo índice ponderado Rw. O índice é indispensável para comparação, mas pode esconder diferenças importantes em determinadas faixas de frequência.
“Na prática, precisamos avaliar por faixa de frequência”, defendeu. Para demonstrar a complexidade do tema, mostrou que materiais apresentam frequências críticas nas quais ocorre queda de isolamento e que vidros duplos com pequenas câmaras de ar podem se comportar praticamente como um conjunto, enquanto câmaras maiores promovem efetivo desacoplamento. Sua síntese reforçou uma das mensagens centrais do encontro: teoria, ensaio e aplicação real precisam caminhar juntas.
A mudança dos hábitos da sociedade foi o ponto de partida de Camila Batista, gerente de desenvolvimento de mercado da Cebrace, na palestra: “O que mudou e o que vai mudar no mercado de vidro nos próximos anos”. Comparando referências residenciais de três décadas atrás com a arquitetura atual, Batista mostrou como paredes deram espaço a grandes superfícies envidraçadas. Ambientes antes compartimentados passaram a ser integrados e características como conexão visual, iluminação natural, funcionalidade, tranquilidade e conforto ganharam peso na decisão do consumidor. “Mudou o estilo de morar e de viver. Hoje as pessoas esperam outros comportamentos das casas e dos espaços que escolheram para viver”, resumiu.
A engenheira Michele Gleice Silva, diretora do Itec – Instituto Tecnológico da Construção Civil, levou ao seminário uma abordagem particularmente prática na apresentação “O que ninguém fala sobre os ensaios”. Segundo ela, a função de um laboratório não deve ser entendida como a simples emissão de um resultado de aprovação ou reprovação. O ensaio permite antecipar, em condições controladas, situações que poderão aparecer mais tarde na obra. “A função principal é reproduzir no laboratório aquilo que vai acontecer depois. No desempenho acústico, você leva o produto para prever o conforto esperado, mas, na obra, continuará dependendo do conjunto, dos outros materiais, da instalação e da mão de obra”, explicou.
Michele destacou ainda a importância do atendimento às normas técnicas e da segurança, lembrando que os edifícios e a maneira de ocupá-lo mudaram e que produtos e sistemas precisam acompanhar essa transformação. Para a engenheira, pequenos ajustes identificados durante o ensaio podem produzir grandes diferenças: regulagem de roldanas, troca de escovas ou guarnições, alteração de fixadores ou correção de ancoragens são exemplos de intervenções que podem melhorar o desempenho antes de o produto chegar à obra. “Em vez de buscar apenas uma aprovação, deveríamos buscar desenvolvimento. Se alguma coisa tiver que dar errado, que aconteça no laboratório, para que possa ser corrigida e não aconteça na obra”, alertou.
A industrialização da construção e o crescimento dos sistemas de fachada a seco estiveram no centro da palestra de Fábio Andrade, da Saint-Gobain, sobre “Monitoramento de fachadas industrializadas com drones”. O especialista apresentou o uso da tecnologia como ferramenta complementar de inspeção e acompanhamento de fachadas, permitindo observar pontos de difícil acesso e atuar preventivamente sobre falhas de execução e patologias.
A diretora da Universidade do Som, Nicole Fischer, apresentou resultados de um levantamento baseado em 396 modelos de esquadrias deslizantes ensaiados entre 2017 e 2025, no qual foram comparados fatores como vidros, sistemas de vedação, mecanismos de fechamento e persianas integradas. Os dados mostraram de forma quantitativa algo muitas vezes observado em campo: aumentar a espessura do vidro, isoladamente, não garante aumento equivalente de desempenho acústico.
Nas classes de maior desempenho apareceram com maior frequência sistemas de vedação mais elaborados, incluindo borrachas, múltiplas barreiras e combinações de elementos de estanqueidade. Em contrapartida, esquadrias com vidros espessos, mas vedação insuficiente, não necessariamente atingiram resultados elevados. “Você pode ter a melhor janela, o melhor vidro e o melhor sistema de vedação; se ela não for bem montada e bem instalada, vai tudo por água abaixo”, afirmou Nicole. Segundo ela, nas janelas de correr, pontos como trilhos, encontros entre folhas e mecanismos de travamento merecem atenção especial porque são caminhos potenciais para passagem do som.


Arquitetura saudável
Se boa parte das apresentações discutiu como alcançar desempenho técnico, Allan Lopes, especialista em Healthy Buildings, propôs ampliar a pergunta desempenho para quem? Em sua apresentação “Vidro & Wellness”, ele defendeu que os edifícios precisam ser analisados a partir das pessoas que vivem, trabalham e passam grande parte do tempo em seu interior. Acústica, temperatura, iluminação, design e demais atributos ambientais não devem ser tratados como indicadores independentes, mas como elementos relacionados à saúde e ao bem-estar dos ocupantes.
Para Allan, o mercado já começa a ultrapassar a ideia tradicional de “conforto” como principal argumento de valor. “A pergunta de hoje não é mais conforto. A pergunta de hoje é bem-estar”. Essa mudança altera também a maneira de desenvolver e comunicar soluções. Em vez de oferecer exclusivamente vidro, janela ou determinado índice técnico, as empresas precisam explicar como esses elementos interferem na qualidade da experiência humana. “Muitas vezes vocês já têm o produto, a solução e toda a eficiência técnica, mas não estão olhando primeiro para o cliente e para a maneira como ele está consumindo e percebendo aquilo”, destacou.
A equipe técnica da Universidade do Som reforçou essa mesma lógica ao demonstrar, com ensaios de diferentes composições instaladas em uma mesma esquadria, que sistemas capazes de apresentar o mesmo Rw podem ter desempenhos bastante diferentes quando se observa cada faixa de frequência. Em um dos exemplos, três composições distintas chegaram ao mesmo índice global, embora uma delas apresentasse uma perda próxima de 9 dB em determinada faixa de baixa frequência.
Inter-Noise 2026, na Austrália
Encerrando a sequência técnica, Edison Claro de Moraes trouxe ao Vidrosom uma seleção de tendências observadas no Inter-Noise realizado em Adelaide, Austrália. Entre centenas de trabalhos apresentados por pesquisadores de dezenas de países, Moraes selecionou estudos relacionados diretamente a janelas, fachadas e isolamento. E deixou claro desde o início que sua intenção era provocar o setor. “Vou trazer muito mais dúvidas, perguntas e provocações do que ensinar alguma coisa.”
Uma das questões que mais chamou sua atenção foi a geometria. Formato, dimensões, curvatura e rigidez dos elementos podem alterar seu comportamento acústico, o que desafia a visão de que massa e espessura seriam suficientes para prever resultados. Edison lembrou que uma solução muito pesada pode inclusive prejudicar uma janela de correr ao exigir demais de roldanas e ferragens e acabar abrindo caminhos para passagem de som. “Menos é mais. Com muito peso, você pode não ter o benefício que está imaginando”, resumiu ao discutir a relação entre vidro e sistema.
Outro destaque foram pesquisas voltadas à conciliação entre ventilação e atenuação sonora, hoje um dos principais desafios tecnológicos da área. Entre as soluções estudadas estão sistemas adicionais de fechamento, dispositivos geométricos para passagem de ar e redução de ruído e o retorno de elementos como brises, avaliados também sob a ótica acústica. Edison destacou ainda estudos sobre vidros curvos: ao alterar a rigidez do painel, a curvatura modifica a resposta em determinadas frequências – mais uma demonstração de que o Rw, isoladamente, não descreve completamente o desempenho. “O que manda mesmo é o espectro de frequência”.
Entre as linhas mais futuristas apresentadas estava a biomimética, área que procura soluções tecnológicas inspiradas em mecanismos desenvolvidos pela natureza. Edison citou pesquisas relacionadas à estrutura das asas das corujas, capazes de contribuir para um voo extremamente silencioso, e provocou os fabricantes a imaginar como princípios semelhantes poderiam ser incorporados a perfis, labirintos, materiais absorventes e microperfurações. O objetivo final é ambicioso e resume um desafio recorrente em diferentes apresentações do seminário: criar uma janela que permita ventilação sem trazer o ruído externo para dentro do ambiente.


Do componente à solução
Ao final das apresentações, uma conclusão atravessava diferentes disciplinas. O mercado de esquadrias acústicas avança para um estágio em que não basta comercializar componentes com bons indicadores individuais. É necessário compreender o ambiente, a fonte sonora, as expectativas do usuário e a interação entre todos os elementos construtivos.
A equipe da empresa Atenua Som, resumiu esse raciocínio ao apresentar um caso em que o controle do ruído ferroviário não poderia ser solucionado exclusivamente pela janela. A análise integrada mostrou a necessidade de intervir também no entorno da edificação. A provocação deixada ao público foi simples: “Vocês vão continuar vendendo a janela ou vão oferecer a solução?”
Vidros mais sofisticados, ensaios laboratoriais, drones, novos sistemas construtivos, simulações, materiais especiais e pesquisas internacionais ampliam significativamente as ferramentas disponíveis. Mas o salto de qualidade acontece quando tecnologia e conhecimento são organizados em torno de uma necessidade concreta das pessoas. Num cenário urbano em que o silêncio é, de fato, cada vez mais disputado, a acústica deixa de ocupar o final do projeto como medida corretiva. Passa a fazer parte da arquitetura desde a concepção, dialogando com segurança, eficiência energética, iluminação, ventilação, saúde e bem-estar.